Esforço pra apanhar

 

A função mais ingrata do momento é a de gestor público durante a pandemia do Coronavírus. Não há definição prática maior do tal “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Apanha se deixar tudo aberto, apanha se mandar fechar, apanhar se fiscalizar, apanha se não fiscalizar.
E apanha quando fica no meio do caminho. Com é o caso dos decretos baixados recentemente pelo Estado e prefeituras da Grande João Pessoa. Diante de um crescimento indiscutível no número de casos que, mesmo apresentando proporcionalmente índice bem menor de internações em razão da vacinação, ameaça colapsar o sistema hospitalar, chegou-se a decisão de freiar novamente o ritmo.
O alvo deveria ser os eventos com grande capacidade de aglomeração, proximidade das pessoas sem máscaras, e, infelizmente, sem garantias de controle. Deveria, mas não foi. Como quem cria um texto sob medida para deixar passar aquilo que já estava programado como festas para fevereiro e março, quando se prevê o pico das contaminações e óbitos, os decretos saíram permitindo os grandes eventos. Sim, grande, porque cinco mil pessoas numa festa não pode ser uma simples confraternização do escritório.
Ou seja, não colocaram metiolate na ferida. Passaram ao lado. Pior: para dar um caráter de preocupação geral, ainda incluíram segmentos que mal poderiam ser considerados locais de contaminação incontrolável, tais como restaurantes.
O certo não seria uma suspensão total por 30 dias para se avaliar resultados e até tirar realmente a prova de que a culpa está “tão somente” na aglomerações de massa?
Como foi feito, por exemplo, com as festas populares, abertas, públicas, gratuitas, resumindo, o carnaval, que também é gerador de renda. E para muita gente.
Bom, pode-se alegar que não daria para prejudicar o setor já tão penalizado como o de eventos. E que agora a obrigatoriedade de apresentar teste negativo de Covid vai afastar o risco de contaminação. Não sejamos insensíveis. Digamos, comovidos, que tudo bem. Que concordamos.
Mas fica a pergunta: quem fiscalizará a apresentação – e veracidade – dos testes negativos? Porque se forem os organizadores dos eventos não dá para não dizer que a obrigação ficará só no papel. Será preciso que o próprio poder público vá para a porta dos eventos, de cada um deles, com pessoal autorizado e protegido para dizer “não” ao pai da noiva que chegar ao casamento sem o teste negativo, ao grupo de jovens, amigos dos donos da festa, com ingressos comprados a 500 nas mãos querendo entrar com testes feitos uma semana antes do evento.
O poder público vai para a porta dos eventos? Não? Então, teremos mais razões para reclamar…

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