O surpreendente encontro do governador João Azevedo e o prefeito Cícero Lucena, incluindo na mesma sala da Granja Santana o vice-governador Lucas Ribeiro e o vice-prefeito Leo Bezerra, renderá assunto político para as próximas 72 horas, pelo menos. Gerando, naturalmente, todo tipo de análise e especulação. Afinal, todos eles estão em plena efervescência de um rompimento que mudou o tabuleiro político da Paraíba para as eleições de 2026, com direito a críticas, farpas e prefácios de ofensas.
Uma das leituras, talvez a mais tentadora de fazer de cara, é de que o encontro sinaliza para possibilidade de pacificação entre o grupo. Caso contrário, não teriam se sentado tão rápido e de forma tão amistosa como fizeram. Isso passaria pela retirada da candidatura de Cícero Lucena e retorno dele a base governista. Portanto, tese tentadora, mas improvável. Quiçá impossível.
Mas o encontro, querendo ou não, vai gerar essa especulação sim. E caberá ao prefeito de João Pessoa, e sua comunicação, se esforçar para desfazer qualquer sinal de entendimento neste sentido, uma vez que a roda maior nunca vai precisar se justificar de um encontro com a roda menor. E, neste caso, sendo o encontro na Granja Santana, está claro que a prefeitura está sob a recepção do Governo. E não o contrário.
Bom, não tendo nada a ver com reconciliação, resta apenas a tese de que o prefeito Cícero Lucena procurou correr para resolver um grande abacaxi que estava nas suas mãos, o mal uso da Estação das Artes, cujos últimos eventos registrados renderam à gestão municipal, além de críticas, a uma representação no Ministério Público Estadual. Não tendo o que fazer com ela, Cícero recorreu a uma tábua de salvação que foi deixada no mar do Cabo Branco pelo próprio governador João Azevedo em julho deste ano, conforme publicamos recentemente no blog, O pedido para instalar no prédio da Estação das Artes o tal Centro Internacional de Computação Quântica, levando para o local máquinas que são raras no mundo, inclusive.
Trocando em miúdos, Cícero correu para esconder o “corpo” embaixo da mesa de João em seu gabinete na Granja Santana. E se não há corpo, praticamente, não há crime. Assunto resolvido. Cícero não precisará mais dar justificativas do uso da Estação, resolverá um problema de não saber o que fazer com aquele elefante branco transformado em circo e ainda consegue dizer ao povo – ou ao seu eleitorado – que deu um presentaço para o governo, pois, todas as vezes que o governador João Azevedo for defender o Centro Internacional de Computação Quantica de João Pessoa, ouvirá o prefeito de João Pessoa dizendo “fui eu quem dei o prédio”.
Uma estratégia que o próprio João não poderia se desvencilhar uma vez que foi ele mesmo que pediu o prédio.
A rigor, e não precisa ser um especialista em computação quântica para dizer, o governo do Estado, mais uma vez, salvou a prefeitura de uma bronca que ela sozinha não estava conseguindo resolver. E de uma forma em que o prefeito Cícero Lucena é que se colocou como o benfeitor, apesar dele ter sido, na verdade, o grande beneficiado. Coisa de artista.