Sejamos cartesianos. Em qualquer outro cenário, com quaisquer outros personagens da política, Cícero Lucena já teria sido politicamente descartado das relações governistas pelos passos que vem dando. Simplesmente porque é candidatíssimo ao governo apesar do atual governador João Azevedo, desejando ser Senador da República, esperar claramente, de seus aliados, apoio irrestrito ao vice-governador Lucas Ribeiro.
E mais. Porque Cícero mira o mesmo cargo – que estaria destinado a Lucas para contemplar o projeto de João- já flertando e sendo a principal esperança dos que fazem oposição. E não adianta dizer que todos, de Nabor a Lucas, tem fechado apoios com figuras da oposição, algo natural quando se quer ganhar a eleição. Cícero é diferente porque deseja o mesmo espaço no qual só cabe um e já seria, “naturalmente”, dado a quem ascenderá ao posto de governador do grupo.
As últimas falas de Cícero, em agenda no interior neste final de semana ao lado do senador Veneziano Vital do Rego (MDB), que está com largo sorriso diante desta “paquera”, revelam que o prefeito de João Pessoa está disposto a esticar a corda. Dentro da base governista, informa que vai deixar o PP. Dentro da base governista, diz que é candidato ao governo e ninguém tira.
Cícero vai ficando cada vez mais à vontade de fazê-lo. Sobretudo porque “escapou” da chamada que Aguinaldo Ribeiro, presidente do PP paraibano, deu. Depois do carão, nada aconteceu contra o prefeito. Ele continua dando as cartas.
E por que Cícero faz isso sem medo? Ah, aí prepara a cabeça para ler o que vem a seguir.
Cícero faz isso por vários motivos. Primeiro, por saber do perfil do governador João Azevedo, que não é dado a assumir o controle da sucessão, nem de brigar com ninguém. Porque sabe que, politicamente, há uma vulnerabilidade no governador em não poder – nem querer – desagradar a ninguém, já que se deseja ser senador, tendo que deixar o governo, parecer dar sinais de esperar apoio e voto de onde for possível. Talvez, inclusive, do próprio Cícero.
Já registrei aqui que o prefeito acerta em manter-se candidato dentro da base, defendendo o governo e suas boas ações, porque imagina que em abril João pode mudar de ideia, e não sair. Com a “autorização” que tem para fazer o que bem entender agora, sabe que pode levar essa discussão até o prazo máximo de desincompatibilização. E quiçá ser ungindo candidato do próprio governo.
Do jeito que vai, é capaz de conseguir fechar chapa com a oposição e, la na frente, desfazer para ficar com o governo. Como disse, sabe que pode esticar a corda porque parece não haver consequências punitivas no código de relações políticas do governador João Azevedo.