O velho Nelson Mandela dizia, de alguma forma, que não é preciso ter coragem. Mas demonstrar que tem. Em tempos de renúncia de mandatos para quem vai disputar as eleições deste ano, é preciso as duas coisas para abdicar do cargo e do poder para se arriscar numa disputa eleitoral com resultado incerto. Especialmente quando se abre mão de três anos como prefeito, e suas chances são as mais desafiadoras.
Na Paraíba, registre-se que, de todas as renúncias em curso, a saída de Nabor Wanderley da prefeitura de Patos é mais corajosa de todas, superando a do governador João Azevedo, que sai para disputar uma vaga no Senado, e a do prefeito da Capital, Cícero Lucena, que mira a eleição para governo.
Supera a de João primeiro pelo tempo. João, para tentar uma vaga de senador, está abrindo mão de apenas nove meses de gestão como governador. Nabor são dois anos e nove meses. Igual o tempo de Cícero. O problema é que, diferentemente de João e de Cícero, o prefeito de Patos, que já marcou sua saída para o próximo dia 4, não está na frente das pesquisas.
Aliás, pelos números de hoje, sua situação seria uma das mais improváveis. João lidera para o Senado. Cícero lidera para o governo. Nabor está atrás, para não dizer em “último”, em todas as projeções. E ele entra numa campanha que terá um ex-governador que deixa o governo com mais de 70% de aprovação, um senador candidato à reeleição com o apoio de Lula, cheio de emendas distribuídas nos municípios, e que avançou sozinho por muito tempo nesta disputa. De quebra, ainda tem um ex-ministro de Bolsonaro, o médico Marcelo Queiroga, que arrebanha votos da direita, e agora inventaram a candidatura de André Gadelha, outro sertanejo para fazer frente ao seu discurso de representante do sertão.
Soma-se a isso o fato de ir para uma campanha diante de toda a exposição nacional do presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, seu filho, que gera, naturalmente, amores e ódios em razão do espaço que ocupa.
Quanto mais se fala sobre o quadro, mais cresce o conceito sobre coragem para Nabor. Algo semelhante ao que se viu na candidatura de Efraim Filho em 2022, quando também se arriscou numa disputa acirradíssima à única vaga de senador daquela eleição. O movimento de Nabor é tão – e, como eu disse, o mais – ousado que deve assustar, intimamente, aos adversários. Se diante de tudo isso ele está deixando a prefeitura para encarar a disputa é porque vê oportunidades no cenário que os pobres mortais não conseguem ver. Se diante de tudo isso está abrindo mão do posto de prefeito de uma das principais cidades do sertão paraibano é porque tem um trunfo que faz tremer o mais impassível dos adversários.
Claro que o prefeito vê a força política que seu grupo e seu partido tem, especialmente junto aos prefeitos paraibanos. É claro que ele vê a brecha do tal “segundo voto” que tem dado a vitória para candidatos improváveis ao Senado. É claro que ele analisa a força de uma chapa governista unida e a capacidade que ela tem de “arrastar” para vitória quem nela está.
Mas não há como não se falar em coragem, ou demonstração de coragem, na atitude de Nabor Wanderley. Requisito básico para quem desejar ascender na política. E na vida.