Até que a morte os separe

Quero morrer nas botas. Foi com esta frase que, certa vez, há algum tempo, José Maranhão respondeu a uma pergunta sobre quando se aposentaria da política.

A expressão, contida na sabedoria popular, aponta para o desejo de trabalhar até morrer. Maranhão teve seu pedido atendido. Ele estava ali de pé, num domingo, segundo turno das eleições para prefeito em João Pessoa, antes de ser levado ao hospital.

Maranhão morreu nas botas, fazendo o que mais gostava. Foi a Covid que tirou seu chão. E não sem que ele disputasse contra ela o primeiro e o segundo turno. Não perdeu de cara. Levou a disputa acirrada até a última instância. Fez campanha pela vida. Chegou a ganhar da Covid. Mas não esperava que a disputa fosse levada para o tapetão, visto que não pôde suportar as conseqüências do embate. Ao final, rendeu-se ao resultado, não sem deixar aquela sensação de que a vitória da adversária foi ilegítima, desleal, desrespeitosa, desumana, como tem sido todas as mortes causadas pela Covid19.

Alguém pode estranhar tanta homenagem, vinda de aliados e adversários, admiradores e críticos, a um político que já foi duramente atacado por seus oponentes. E dizer: “Tudo isso agora só porque ele morreu”. Somente quem consegue ver a política como uma natural sucessão de brigas e alianças para conquistar o poder e, a partir daí, fazer menos ou mais pelo bem comum, vai compreender Maranhão como alguém que sempre mereceu o respeito de seus adversários e inimigos políticos. Os embates sempre foram inevitáveis diante da disputa de muitos por apenas um lugar. Fora disso, e no íntimo, todos reconheciam no mestre de obras, o espírito público que se traduz em fazer do próprio poder um instrumento de transformação de uma parcela “descamisada” e sem perspectiva da população.

Nestes últimos meses, em que a Paraíba acompanhou atentamente seu estado de saúde, este reconhecimento foi ficando mais evidente. Apenas desta vez, sob a coordenação fervorosa da desembargadora Fátima Bezerra, sua esposa, que demonstrou sempre uma fé similar a de Maria, havia uma torcida unânime para que ele vencesse.

Maranhão, no entanto, ao longo de seus mais de 60 anos de vida política, adquiriu a experiência de que numa disputa é possível ganhar ou perder. E sabia, claro, que a política da vida impõe a todos nós, sem exceção, uma última e inapelável derrota, que é capaz de nos levar, crentes e praticantes da salvação em Deus, a maior de todas as nossas vitórias, a vida eterna.

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