A emocionante história da paraibana que virou professora na empresa que limpava o chão

Esta é uma história sobre Luzia Sandra, nascida em Gurjão, na Paraíba. Uma mulher que virou professora de Anatomia no curso de Medicina da faculdade que começou limpando o chão. Mas é impossível contar a história dela sem antes contar a história de Ilza Moura. Outra paraibana.

Dona Ilza teve 14 filhos, virou professora de escola pública municipal em Juazeirinho e ficou viúva sendo obrigada a cuidar de todos e de tudo relacionado ao marido falecido, Seu Manoel Abel Moreira, pai de seus filhos, ex-funcionário de fazenda em Taperoá. Ela tinha uma verdadeira devoção à educação.

Entre o cuidado dos filhos, as tarefas domésticas, a costura para ganhar dinheiro, se formou em Pedagogia e passou a ensinar num grupo escolar primeiro em Juazeirinho, onde morava com os filhos e filhas, depois em Assunção, no tempo em que foi morar em Taperoá, após a morte do marido. Ele passava boa parte do tempo fora de casa, na fazenda onde trabalhava.

Dona Ilza tinha um sonho que não escondia para ninguém. Queria ver seus filhos formados. Mas dos 14 que Deus a deu ninguém se formou. À exceção de uma. A última que ela teve, nascida quando já tinha 46 anos. Uma menina para quem Dona Ilza, com seu amor à educação, dedicação aos filhos, devoção religiosa e, principalmente, uma coragem digna dos santos, foi a grande fonte de inspiração.

E cujos o ensinamentos serviram e servem como cajado até hoje, mesmo e, especialmente, depois que ela faleceu em 2004, sem ter visto, da terra, a formatura de sua única filha formada.

Essa menina chama-se Luzia Sandra Moreira Moura. Lembra dela no começou dessa história?

Pois bem. Foi inspirada em Dona Ilza, sua mãe, que Sandra traçou uma trajetória de estudo que a fez sair do interior da Paraíba e virar professora de Anatomia do curso de Medicina da Famene, em João Pessoa, uma empresa em que ela começou trabalhando de vassoura e pano na mão, limpando os laboratórios para os alunos de técnico em enfermagem durante o dia, para estudar à noite.

Vamos à história dela.

Sandrinha, como você sabe, foi a última filha de Dona Ilza. Via a mãe professora como uma heroína. Desde menina, sabia do sonho da mãe em ver um filho formado. Ninguém tinha conseguido. Ela não queria decepcionar. Iria mudar a história da família e realizar o sonho de sua musa.

Empenhou-se nos estudos. Tanto que no Ensino Médio, já podendo ser ajudada por um dos irmãos que, bem mais velho, foi estudar em Campina Grande e fazer cursinho. Lembra uma vez que voltando para casa o motorista do transporte que a levava junto com outros estudantes informou que precisava passar no IML para levar o corpo de um jovem que falecera. Foi atrás do veículo durante toda a viagem com o defunto ao seu lado. Não sabia naquela época que aquilo seria o primeiro sinal de Deus de que um dia ela viveria de dissecar cadáveres e explicar para futuros médicos o que constituem cada parte do corpo humano.

“Não tive repulsa. Fui a viagem inteira rezando por ele”, lembra.

Terminado o Ensino Médio, em 2002, convenceu a mãe a vir a João Pessoa, para se dedicar mais e melhor aos estudos. A questão financeira já apertava a família. Dona Ilza, viúva, já sem dar aula, já não tinha lá essas condições. A maioria dos irmãos já estava tocando, cada um na sua luta, suas vidas.

Sandra começou a trabalhar numa lojinha no Centro Turístico de João Pessoa. Era uma loja de roupas e objetos indianos, de uma casal da Índia, professores da Universidade Federal da Paraíba. Outra vez, sabia Sandra, Deus preparava o terreno para que ela não largasse os estudos e continuasse. Virou rapidamente gerente da loja, com a garantia dos patrões, amantes da educação, de ter tempo para estudar. Com o salário, além das contas para se manter, pagou um curso técnico de enfermagem na Facene. Concluiu em 2008.

Mas queria mais. Queria o superior de Enfermagem. Mas a loja dos professores indianos fechou. Eles voltaram para Índia. E o curso de Enfermagem, bem mais caro do que o técnico, já não tinha como pagar.

Procurou a Direção da Faculdade. Pediu desconto. Como foi uma boa aluna, além do desconto, ganhou um emprego de auxiliar de laboratório na Escola Técnica de Enfermagem Nova Esperança. Tinha a missão de organizar os laboratórios, o que acrescentava limpeza, para os alunos do curso Técnico em Enfermagem.

Não se fez de rogada. Disse sim na hora. E abraçou o novo trabalho com amor. Limpava todo o laboratório, os equipamentos, varria, passava o pano, entregava tudo pronto para o professor e os alunos. Lembra-se de uma vez que recebeu, enquanto trabalhava, a visita de um ex-colega do curso Técnico de Enfermagem, que a viu de vassoura na mão.

“Você não deveria fazer isso. Não terminou o técnico para isso. Não é o seu trabalho”, disse o “amigo”. Ela, sem se abalar, justificou e ainda, de sobra, ensinou-lhe algo sobre cuidar das pessoas: “Faço com amor porque é a única chance que tenho e, além disso, se um paciente vomitar na sua frente, você o deixará na sujeira até que possa vir alguém?”. Nunca mais o viu.

Trabalhava o dia inteiro e à noite saía dos laboratórios direto para o curso Superior de Enfermagem. Acordava cedo, pegava às 7h30 e largava às 17h, quando “corria” para a faculdade, e voltava para casa, chegando às 23h. Não tinha tempo para estudar, dormia no ônibus, o curso exigia cada vez mais, não estava conseguindo. Viu-se chorando várias vezes. Quis desistir.

Era quando vinha a lembrança de Dona Ilza (na foto ao lado), já falecida. Um dia, ainda menina, assim que o pai morreu, Sandra acompanhou a mãe em seu périplo para resolver as coisas do falecido. Negócios, questões trabalhistas, entre outros. Triste pela perda do marido, sozinha com tantos filhos para criar, a mãe chorava em cada lugar que parava para discutir as coisas, e fechar as pendências. Lembra de ter perguntando a mãe como ela conseguia. E ouviu uma das lições mais importantes de sua vida. “Na vida, minha filha, muitas vezes, é chorando e resolvendo”.

Chorando e resolvendo. Chorando e resolvendo. Foi assim que ela engoliu o choro, segurou as lágrimas, e manteve-se na pesada agenda diária, que incluía cuidados com o irmão portador de Down. Nos primeiros semestres, já havia virado monitora de disciplina, ganhando desconto na faculdade.

O resultado? Vou avançar. Luzia Sandra, a filha caçula de Dona Ilza, se formou Enfermeira no ano de 2012. A sua mãe, sua grande heroína, não estava fisicamente presente. Mas Sandra sabia o quanto ela estava “ali”, naquela festa que reuniu mais de 50 pessoas, entre irmãos, irmãs, sobrinhos, sobrinhas, primos, primas, cunhadas, cunhados, numa só mesa, talvez a maior da turma. Todas foram ver a filha de Dona Ilza “formada”.

Obcecada, Sandra fez seleção para professora do curso de Técnica de Enfermagem da Facene, a faculdade onde limpava os laboratórios, lembra? Passou, claro.

No primeiro dia de aula, quando entrou na sala como professora Sandra, encontrou estudantes que a tinham visto de vassoura na mão limpando laboratório. Tinha gente chorando e gente aplaudindo. Tiveram que chama-la de professora. E com orgulho.

Sandra acabou passando pouco tempo lá. Porque fez uma seleção para Professora de Anatomia do curso de Medicina, pela qual se submeteu a um teste que consistia em dar uma aula para cirurgiões experientes, além da direção da própria faculdade, e foi selecionada.

“Ninguém que se dedica passa despercebido pela Famene”, resume.

Está como professora de Anatomia desde 2015.  É especialista em Urgência e Emergência, tem Mestrado e Doutorado em Unidade de Terapia.

Já ensinou a mais de dezoito turmas. A primeira delas, quando se formou, rendeu homenagens à professora Sandrinha durante a formatura.

Hoje, sempre que acaba um semestre, ela conta esta história que vocês leram acima para seus alunos. Não quer se vangloriar. Quer apenas estimular os futuros profissionais. E manter viva a memória da mãe, sua musa. Mostrar que, na vida, muitas vezes é chorando e resolvendo. Chorando e estudando. Chorando e trabalhando. Chorando e cuidando.

“Não devemos desistir nunca”, resume, lembrando que já viu ex-alunos voltarem para dizer a ela que, em certos momentos difíceis da vida, lembrava da frase “chorando e resolvendo” de Dona Ilza. E que se fortaleceram com isso. Além de contar sua trajetória para os estudantes, ela vai além e ensina aos futuros médicos a responsabilidade que terão em suas mãos como profissionais. E, principalmente, como instrumentos de Deus. “Serão todos, aceitando ou não aceitando, instrumentos de Deus”, finaliza.

Feliz consigo mesma, a professora Sandra diz que o que vier agora para sua vida é muito mais do que ela poderia sonhar.

Talvez não saiba que, mesmo sem querer, virou uma espécie de “Dona Ilza” para seus alunos.

Professora Luzia Sandra

Graduação em Enfermagem

Especialização em Urgência e Emergência

Mestrado e Doutorado em Unidade de Terapia Intensiva

 

2 comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *